quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Alma

"-- E a sua alma? Onde acha que ela foi parar? -- Deve andar vagando pela terra como tantas outras; buscando vivos que rezem por ela. Talvez me odeie pelo mau-trato que dei a ela; mas isso já não me preocupa. Descansei do vício de seus remorsos. (...) Quando me sentei para morrer, ela rogou que eu me levantasse e que continuasse arrastando a vida, como se esperasse ainda por algum milagre que me limpasse de culpas. Nem tentei. "Aqui o caminho se acaba" disse para ela. "Não me restam forças para mais." E abri a boca para que minha alma fosse embora. E ela foi. Senti quando caiu em minhas mãos o fiozinho de sangue com que estava amarrada ao meu coração."
"Pedro Páramo", Juan Rulfo


Todos os dias em algum momento ela vem me visitar. E quando sinto o vento que ela traz consigo, ou será o vento a traz, enfim, quando sinto o vento, logo cabeça e coração começam a brigar. Órgãos mimados conscientes da própria onipotência cobram pelo controle da minha alma. E ela se deixa levar, ora por um, ora por outro. Faz intrigas entre eles, encanta-os de modo que eles não se percebem aprisionados. E se enfim é ela quem está no controle, se ela os venceu, ficamos todos, cabeça, coração e eu, encantados pela sua coragem. E então a festa começa e ela dança, dança sem parar e ficamos bêbedos em seus rodopios incessantes. E se por ventura, meu coração se encanta pelo impossível ela corre a distrair minha cabeça. E quando acordo, com a garganta seca e as pernas fracas pra me levantar, já é tarde. Meu corpo sente suas cócegas de despedida e ainda vejo pela janela seu sorriso divertido. E me levanto, e escovo os dentes, me curando de sua ressaca, e me preparo pra briga que vai recomeçar...

Orieta Valentim

2 comentários:

Farelo Martinez disse...

Orieta, penso que o medo da morte esteja por trás da grande parte de nossos movimentos, mas vivemos nos entorpecendo para acreditar nos milagres da vida. O poeta transforma o medo e a angústia em palavras e em transmissão de mensagem.
A sensação de que o tempo passa e que a vida não é tão aproveitável como se deseja é um combustível para a poesia.

Abraços e obrigado pela reflexão!

Farelo Martinez

Bianka disse...

Cabeça e coração. Os dois trabalham lado a lado, mas brigam mais do que se entendem... talvez por serem demasiados diferentes em sua opiniões ainda nos deixam loucos por não sabermos a quem seguir.